7  Projeto de Sistemas de Irrigação Pressurizada

7.1 Microirrigação

O principal objetivo do dimensionamento é proporcionar uma aplicação de água uniforme e eficiente às plantas e atender a demanda de água destas. Além disso, deve demonstrar viabilidade financeira com o menor custo de instalação e operação que satisfaçam as condições acima.

Via de regra, o projeto deve ser o mais simples possível. Também deve satisfazer o nível de especialização do irrigante. A confiabilidade do sistema também é muito importante.

7.2 Dimensionamento agronômico de sistemas de microirrigação

O dimensionamento agronômico tem como objetivo determinar a máxima lâmina de irrigação que deverá ser aplicada pelo sistema no momento do ciclo da cultura em que a evapotranspiração é máxima. Este valor de evapotranspiração diária é encontrado em estudos relacionados ao consumo hídrico das culturas.

O turno de rega pode ser calculado a partir de dados do solo e da planta, ou então, definido a priori de modo a garantir o alto potencial de evapotranspiração da cultura. Em todo caso, o turno de rega é pequeno (alta frequência) variando de 1 a 3 dias. Os menores valores são utilizados para culturas mais sensíveis à falta de água (olerícolas em geral) e os maiores valors para culturas mais tolerantes (frutíferas em geral).

A lâmina máxima de irrigação é calculada pela multiplicação da evapotranspiração máxima diária pelo turno de rega:

\(Lam_{loc} = ETc_{max} \cdot TR\)

Além disso, a evapotranspiração deve ser corrigida para a irrigação localizada, pois esta não molha a área total. A ETc é corrigida por um fator KL que, por sua vez, depende da área molhada ou da área sombreada pela cultura.

\(K_L = P + 0,15 \cdot (1-P)\)

em que P (decimal) é a porcentagem de área molhada ou de área sombreada.

\(ETc_{loc} = ETc \cdot K_{L}\)

A porcentagem de área molhada/sombreada é calculada por:

\(P = \frac{A_{m/s}}{A_T}\)

em que:

  • Am/s - área molhada/sombreada
  • AT - área total

Vejamos alguns exemplos para facilitar a compreensão destes conceitos:

Considere um plantio de alho em canteiros de 1,0 m de largura e carreadores de 30 cm. O espaçamento é de 40 cm entre fileiras duplas. A irrigação por gotejamento forma uma faixa molhada contínua de 40 cm de largura. A evapotranspiraçao máxima da cultura foi determinada em 5,2 mm/dia. O turno de rega foi definido em 2 dias. Qual a porcentagem de área molhada e a lâmina de irrigação máxima diária?

Porcentagem de área molhada:

\(P = \frac{100}{130} = 0,769\)

Fator de correção para irrigação localizada:

\(K_L = 0,769 + 0,15 \cdot (1-0,769) = 0,804\)

Evapotranspiração da irrigação localizada:

\(ETc_{loc} = ETc \cdot K_L = 5,2 \cdot 0,804 = 4,18 mm/dia\)

Lâmina de irrigação máxima diária:

\(Lam_{loc} = 4,18 mm/dia \cdot 2 dias = 8,36 mm\)

Considere um plantio de citrus no espaçamento de 4,0 x 7,0 m. O diâmetro da projeção da copa das árvores é de 3,2 m. A evapotranspiração máxima é de 4,7 mm/dia. O turno de rega foi definido em 3 dias. Qual a porcentagem de área molhada e a lâmina de irrigação máxima diária?

Porcentagem de área molhada:

\(P = \frac{\pi \cdot 3,2^2/4}{4,0 \cdot 7,0} = 0,251\)

Fator de correção para irrigação localizada:

\(K_L = 0,251 + 0,15 \cdot (1-0,251) = 0,363\)

Evapotranspiração da irrigação localizada:

\(ETc_{loc} = ETc \cdot K_L = 4,7 \cdot 0,363 = 1,71 mm/dia\)

Lâmina de irrigação máxima diária:

\(Lam_{loc} = 1,71 mm/dia \cdot 3 dias = 5,13 mm\)

7.3 Dimensionamento hidráulico de sistemas de microirrigação

O principal objetivo do dimensionamento hidráulico é determinar quais emissores serão utilizados, qual o material das tubulações e seus respectivos diâmetros, a pressão necessária em vários pontos do sistema e as especificações do conjunto motobomba necessário para pressurizar o sistema.

O primeiro passo consiste em selecionar um emissor adequado para atender às características do projeto. É o momento mais importante do dimensionamento hidráulico e requer uma combinação de critérios objetivos e subjetivos.

De modo geral, a seleção será feita com base na vazão do emissor. Esta será utilizada para determinar a intensidade de aplicação do emissor, o tempo de irrigação e a quantidade de subunidades do sistema.

Trecho de uma catálogo de emissor do tipo gotejador. Catálogo disponível em naandanjain.com.br

A intensidade de aplicação é calculada por:

\(I_a = \frac{Q_{emissor}}{espaçamento}\)

em que: Qemissor - vazão do emissor

O espaçamento a ser utlizado pode ser o espaçamento da cultura ou o espaçamento entre emissores, dependendo se houver a formação de uma faixa contínua irrigada ou não.

O tempo de irrigação em cada posição é calculado por:

\(T_{irrig} = \frac{Lam_{loc}}{Ia}\)

O número máximo de subunidades em que o sistema pode ser dividido é calculado por:

\(N_{su} = \frac{TR \cdot Jornada}{T_i}\)

em que a Jornada de trabalho é a quantidade de horas do dia disponíveis para a irrigação.

Em seguida, devemos criar o layout da divisão da área irrigada em subunidades.

Layout de um sistema de microirrigação.

O valor obtido para a quantidade máxima de subunidades deve balizar a decisão nesse ponto, mas não deve ser considerado um valor rígido. Uma quantidade excessivamente grande de subunidades é custosa e cria dificuldades no manejo.

Nesse momento também é muito importante desenhar o layout das linhas de irrigação: adutora, principal, derivação e lateral. O comprimento destas linhas devem aparecer claramente no layout do sistema de irrigação (veja Figura @ref(fig:7-croqui).

Considere as seguintes especificações de um projeto:

  • Vazão do emissor = 1 L/h
  • Espaçamento = 0,25 x 1,0 m
  • Lâmina de irrigação máxima diária = 4,8 mm
  • Turno de rega = 1 dia
  • Jornada = 16 h

Calcule o número máximo de subunidades.

\(I_a = \frac{1 L/h}{0,25 \cdot 1,0 m^2} = 4 mm/h\)

\(T_{irrig} = \frac{4,8 mm}{4 mm/h} = 1,2 h\)

\(N_{su} = \frac{1 \cdot 16}{1,2} = 13 subunidades\)

Na Figura @ref(fig:7-croqui) vemos um layout dividido em 10 subunidades, compatível com as especificações deste projeto.

7.3.1 Dimensionamento da subunidade de microirrigação

A subunidade de microirrigação é composta, geralmente, por uma linha de derivação de onde partem as linhas laterais. Para a aplicação uniforme de água na subunidade, são fixadas variações máximas de vazão entre os emissores. O critério mais comumente utilizao é permitir uma variação máxima de 10% na vazão dos emissores.

Para alcançar essa variação de vazão, deve-se atingir uma variação máxima na pressão entre os emissores. Para emissores não regulados, a variação de pressão é calculada pela seguinte equação:

\[ H_{var} = Q_{var}^{(1/x)}-1 \]

em que

  • Qvar - variação de vazão entre os emissores: qmax/qmin
  • x - expoente da relação pressão-vazão do emissor

Para emissores autocompensantes, a variação de pressão é dada pelo intervalo de pressão de funcionamento do emissor, obtido junto ao catálogo deste.

Para uma variação máxima de 10% na vazão (Qvar= 1,1), qual a variação de pressão que pode ser permitida para emissores cujo expoente da relação pressão-vazão é igual a 0,50.

\[ H_{var} = 1,1^{(1/0,50)}-1 = 0,21 \]

A variação de pressão é de 21%

O diâmetro mínimo das linhas de derivação e lateral é calculado por meio das fórmulas de perda de carga (Fórmula Universal, Equação de Hazen-Willians, Equação de Flamant, etc.) a partir de informações do número de emissores em cada linha lateral, número de linhas laterais partindo da linha de derivação, comprimento das linhas de derivação e laterais e vazão média do emissor.

O diâmetro calculado deve ser utilizado como indicativo na seleção do diâmetro comercial. Deve-se sempre selecionar um diâmetro comercial superior ao calculado para garantir a máxima variação de vazão adotada no projeto.

7.3.2 Dimensionamento da linha principal e secundárias

No dimensionamento destas linhas, o critério econômico é amplamente utilizado. Deve-se chegar a um ponto de equilíbrio entre o custo de aquisição das tubulações e o custo de operação devido às perdas de carga. Para isso, um ponto de partida é o critério da velocidade máxima de 2 m/s da água nas tubulações.

\[ D=\sqrt{\frac{4 \cdot Q}{\pi \cdot 2,0}} \] ### Dimensionamento do conjunto motobomba

Consiste na seleção de um conjunto motobomba adequado que atenda às necessidades de vazão e de altura manométrica requeridas no projeto de microirrigação.

7.4 Análise financeira do dimensionamento de sistemas de microirrigação

Uma etapa fundamental do dimensionamento é a análise dos custos totais do projeto de irrigação. Estes custos são compostos pelo custo do investimento somado ao custo operacional.

O custo do investimento é geralmente gasto antes do início da operação do sistema em uma parcela única. Além disso, existem vários custos de manutenção relacionados à substituição de componentes do sistema, principalmente dos emissores.

O custo operacional é compostos principalmente pelo custo da energia elétrica despendida na operação do sistema, e só incide quando o sistema é de fato utilizado.

o custo total do projeto pode ser estimado pela transformação do fluxo de caixa em um valor presente (VPL) ou em uma série uniforme de pagamentos anuais.